Histórias do Possível - A solidão
Quando me abriste a porta e ao entrar me envolveu o cheiro quente do chocolate, senti-me um intruso.
Era um sábado cinzento, frio e ventoso que eu tinha parcialmente gasto em zappings sem sentido. Dispus-me a sair de casa enojado com a minha apatia, para provar a mim próprio que tinha o que fazer e para onde ir. Vesti um casaco, peguei numa pasta com relatórios e num saco com roupa para deixar na lavandaria. Não sabia se estavas em casa; não me ocorreu ligar-te nem me lembrei da inconveniência de aparecer sem avisar.
Ao abrires a porta e dares comigo rosado do frio e com as golas levantadas suspeito que um relâmpago de surpresa passou nos teus olhos, mas à distância de uns dias penso ser vaidade minha julgar-me responsável pelo brilho escuro deles. Recebeste-me com a simpatia de quem espera continuamente uma visita.
- Olá! Entra depressa que está frio.
Inclinei-me para te cumprimentar e senti o cheiro do chocolate na tua pele macia do calor aconchegante da casa. Inventei à pressa uma desculpa esfarrapada que eu próprio não entendi. Qualquer coisa como:
- Olha desculpa aparecer sem avisar mas vinha para estes lados e resolvi parar para te deixar os documentos de que falamos…
- Documentos…?
- Sim… aqueles relatórios para a apresentação…
- Ahh… pois… claro… já nem me lembrava.
Senti-me o pior idiota que alguma vez pisou a Terra. Mas o bolo de chocolate que tinhas acabado de tirar do forno salvou o dia. Era pequenino, típico de uma pessoa que vive sozinha. Levaste-me para a sala e, enquanto eu olhava fascinado para as tuas estantes desorganizadas de uma maneira que parecia fazer sentido, foste preparar dois cappuccinos e duas fatias de bolo. Nas estantes os livros da adolescente romântica que deves ter sido conviviam pacificamente com grandes clássicos, histórias de aeroporto, fantasia e best sellers contemporâneos. Anne Rice e Lev Tolstói. Jane Austen e Dan Brown. Platão e Paulo Coelho. Havia também colecções dispersas de rochas, velas, fotografias, cd’s e pequenas lembranças artesanais de viagens. Um caos coerente que condizia com a tua pessoa sofisticada no trabalho mas que veste roupa de desporto larga e deixa os pés descalços ao fim de semana.
Foi uma sorte entrares na sala concentrada em não derramar as bebidas, caso contrário darias por mim a olhar fixamente para a tua fotografia em traje académico e com o sorriso resplandecente de quem tem algo que ninguém lhe pode roubar. Voltaste com o bolo e sentámo-nos no sofá para discutir os relatórios. O à vontade com que dobraste os joelhos por cima do sofá e juntaste as mãos à volta da caneca para lhe absorver o calor fez-me sentir alheio ao aconchego da casa. Ao comentar os relatórios tu ouvias e opinavas de forma pertinente entre golinhos de cappuccino e pedaços de bolo. Sim o bolo… Era óptimo, sem dúvida. Leve, apesar de quente, nada enjoativo, o açúcar devia ter sido adicionado parcamente para não camuflar o travo subtil do chocolate. Eu queria pensar que estavas satisfeita por partilhá-lo mas não me conseguia abstrair do facto de ter imposto a minha companhia.
Os relatórios ficaram esquecidos na mesa de apoio e a conversa derivou naturalmente para o tempo, para a música, para a política, para a literatura, para o cinema, para a família. Tópicos aparentemente não correlacionados mas que soubemos encadear perfeitamente na conversa que fluiu por horas.
Passava das oito quando qualquer coisa em mim me lembrou que já eram horas de ir embora. Levantei-me com esse propósito. Tu protestaste, convidaste-me para jantar, chantageaste-me com o facto que detestavas comer sozinha. Fui firme ao desculpar-me com um compromisso marcado, negando a mim mesmo aquilo que ansiava. Cedeste, mas não antes de te certificares que o jantar ficaria para um futuro próximo. Emprestaste-me uns livros e acompanhaste-me à porta resmungando risonhamente contra a conversa interrompida. Um último beijinho e o resquício de um perfume. Adeus e bom fim-de-semana.
Ao entrar no carro, aspirei o perfume ordinário do ambientador e lembrei-me do meu apartamento vazio. Senti-me mais só.
Era um sábado cinzento, frio e ventoso que eu tinha parcialmente gasto em zappings sem sentido. Dispus-me a sair de casa enojado com a minha apatia, para provar a mim próprio que tinha o que fazer e para onde ir. Vesti um casaco, peguei numa pasta com relatórios e num saco com roupa para deixar na lavandaria. Não sabia se estavas em casa; não me ocorreu ligar-te nem me lembrei da inconveniência de aparecer sem avisar.
Ao abrires a porta e dares comigo rosado do frio e com as golas levantadas suspeito que um relâmpago de surpresa passou nos teus olhos, mas à distância de uns dias penso ser vaidade minha julgar-me responsável pelo brilho escuro deles. Recebeste-me com a simpatia de quem espera continuamente uma visita.
- Olá! Entra depressa que está frio.
Inclinei-me para te cumprimentar e senti o cheiro do chocolate na tua pele macia do calor aconchegante da casa. Inventei à pressa uma desculpa esfarrapada que eu próprio não entendi. Qualquer coisa como:
- Olha desculpa aparecer sem avisar mas vinha para estes lados e resolvi parar para te deixar os documentos de que falamos…
- Documentos…?
- Sim… aqueles relatórios para a apresentação…
- Ahh… pois… claro… já nem me lembrava.
Senti-me o pior idiota que alguma vez pisou a Terra. Mas o bolo de chocolate que tinhas acabado de tirar do forno salvou o dia. Era pequenino, típico de uma pessoa que vive sozinha. Levaste-me para a sala e, enquanto eu olhava fascinado para as tuas estantes desorganizadas de uma maneira que parecia fazer sentido, foste preparar dois cappuccinos e duas fatias de bolo. Nas estantes os livros da adolescente romântica que deves ter sido conviviam pacificamente com grandes clássicos, histórias de aeroporto, fantasia e best sellers contemporâneos. Anne Rice e Lev Tolstói. Jane Austen e Dan Brown. Platão e Paulo Coelho. Havia também colecções dispersas de rochas, velas, fotografias, cd’s e pequenas lembranças artesanais de viagens. Um caos coerente que condizia com a tua pessoa sofisticada no trabalho mas que veste roupa de desporto larga e deixa os pés descalços ao fim de semana.
Foi uma sorte entrares na sala concentrada em não derramar as bebidas, caso contrário darias por mim a olhar fixamente para a tua fotografia em traje académico e com o sorriso resplandecente de quem tem algo que ninguém lhe pode roubar. Voltaste com o bolo e sentámo-nos no sofá para discutir os relatórios. O à vontade com que dobraste os joelhos por cima do sofá e juntaste as mãos à volta da caneca para lhe absorver o calor fez-me sentir alheio ao aconchego da casa. Ao comentar os relatórios tu ouvias e opinavas de forma pertinente entre golinhos de cappuccino e pedaços de bolo. Sim o bolo… Era óptimo, sem dúvida. Leve, apesar de quente, nada enjoativo, o açúcar devia ter sido adicionado parcamente para não camuflar o travo subtil do chocolate. Eu queria pensar que estavas satisfeita por partilhá-lo mas não me conseguia abstrair do facto de ter imposto a minha companhia.
Os relatórios ficaram esquecidos na mesa de apoio e a conversa derivou naturalmente para o tempo, para a música, para a política, para a literatura, para o cinema, para a família. Tópicos aparentemente não correlacionados mas que soubemos encadear perfeitamente na conversa que fluiu por horas.
Passava das oito quando qualquer coisa em mim me lembrou que já eram horas de ir embora. Levantei-me com esse propósito. Tu protestaste, convidaste-me para jantar, chantageaste-me com o facto que detestavas comer sozinha. Fui firme ao desculpar-me com um compromisso marcado, negando a mim mesmo aquilo que ansiava. Cedeste, mas não antes de te certificares que o jantar ficaria para um futuro próximo. Emprestaste-me uns livros e acompanhaste-me à porta resmungando risonhamente contra a conversa interrompida. Um último beijinho e o resquício de um perfume. Adeus e bom fim-de-semana.
Ao entrar no carro, aspirei o perfume ordinário do ambientador e lembrei-me do meu apartamento vazio. Senti-me mais só.

8 Comments:
Gostei muito :) Faz lembrar a nossa vida, por vezes clara, às vezes cinzenta... Bom é saber que te tenho comigo... Se assim não fosse, doía mais...
Vamos ter continuação da história, não?
Bjo grande
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"Eu saí da moldura (...)", at 5:08 PM
Na futilidade da nossa vida, o Cappucino proporciona sempre momentos únicos e intensos.
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Paulo Noval, at 2:15 PM
dá-lhe pa chapa
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melena, at 11:31 AM
"dá-lhe pa chapa"...? Melena, não percebi...
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Carolina Almeida, at 5:08 PM
continua
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melena, at 11:11 AM
Melena:
É continua... é. Deixa estar que entretanto eu já percebi ;)
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Carolina Almeida, at 4:28 PM
algo maravilhoso!! lindo lindo!!
mas k tristes k somos todos nós, pobres caminhantes deste mundo, que por entre momentos de felicidade, momentos de conforto, momentos de carinho, nos dispomos a ficar na solidão do nosso quarto, abandonados ao receio de não sermos o k os outros esperam de nós, abandonados à amargura de não nos querermos aproximar de alguém com medo de sermos felizes 1 dia e no dia seguinte sermos a pessoa mais infeliz do mundo por o ter perdido... mas afinal, se n arriscarmos, nc provaremos o cálice dos Deuses: AMOR & FELICIDADE!! digo-vos algo k todos os dias repito pra mim mm, pra me encorajar e ajudar a viver cd dia da melhor maneira possível: CARPE DIEM!!!
continua Carol.. tá impecável... pena o receio dele o ter deixado à solidão do seu apartamento...
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Anonymous, at 9:43 PM
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Unknown, at 5:42 AM
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